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Me entendo, logo canto: conheça o ABC das Vozes

 Chico Azevedo, preparador vocal e professor de canto, estreou recentemente suas vivências semanais no Vajra. Conversamos com ele, para saber mais sobre sua técnica que envolve corpo, mente e –  por que não? – espírito

Se sua voz vem de dentro, nada mais natural que entender seu poder respiratório, energético e psíquico para poder expressá-la melhor, seja pela fala, seja pelo canto. Esta é a proposta do ABC das Vozes, uma vivência semanal com Chico Azevedo, realizada às quintas-feiras no Espaço Vajra.
Nelas, Chico, que é cantor, ator, regente, professor de canto e preparador vocal, questiona: que voz é essa que soa aí no seu interior, dizendo que você “não pode”? Que máscaras criou para atender a padrões sociais, e que agora impedem que você se veja como realmente é, em toda sua plenitude e capacidade?

Neste papo, ele explica um pouco como criou e desenvolve o método de autoconhecimento por meio da expressão vocal, em um processo que envolve respiração, fortalecimento muscular, e desbloqueio da energia vital. Esta, muitas vezes encouraçada em pontos-chaves, conforme teoria do psicanalista Wilhelm Reich, discípulo de Freud e precursor das terapias corporais, que também coincidem com nossos chakras, conforme estudo de Chico Azevedo.
Entenda:

A primeira questão que pode passar pela cabeça das pessoas é: por que fazer uma aula de canto, sem necessariamente ser ou querer ser cantor(a)?
Porque este é um trabalho de autoinvestigação. Eu tenho que falar, eu tenho que me comunicar. É uma necessidade e um desejo humano. Por isso que chamei de ABC das Vozes. Este trabalho é um convite a você olhar de verdade para seu corpo, entender um pouco como começam as inibições, os sentimento autosabotadores. Que vozes são essas falando que eu não dou pra isso? Essas crenças limitantes também: “eu sou desafinado, minha voz é feia”. Essas coisas são muito relacionadas à autoestima.
As aulas serão encontros vivenciais para a prática da expressão vocal.

Se a voz vem de dentro, a gente tem que começar a trabalhar o dentro… É isso?
Eu digo que o trabalho de canto que estou desenvolvendo está muito atrelado ao trabalho de autoconhecimento, em todos os níveis. Nível físico, psicológico e até o que nós poderíamos chamar de nível espiritual. Você tem que ter um conhecimento de autolocalização: “onde é que eu tô?”. Para saber o que eu estou fazendo, como estou me comunicando com as pessoas. Vários aspectos da minha personalidade estão embutidos na minha identidade vocal.

A gente vai dando uma investigada neste aspecto. Hoje a psicologia reconhece que seu corpo é cúmplice do seu psiquismo, sua musculatura… A gente está bordeando um pouco essa questão da psicossomática.
Uma das minhas maiores preocupações é com o recondicionamento respiratório. Lembrando sempre que a gente é um instrumento de sopro, e o ato de cantar, o ato de falar, é uma relação com seu sopro.

Com se dá essa questão da respiração com o psiquismo?
Geralmente todos nós carregamos conosco um histórico de limitações, de crenças limitantes da respiração. Traumas que se originam desde o nascimento. Na maioria das vezes, na primeira respiração, ao sair do ventre você já pode carregar um trauma de inspirar ou expirar, uma relação que já vai se formando desde lá.
E a gente vive uma cultura que é muito pra fora, você é muito exigido de fora pra dentro, desde a família, depois a escola, depois o trabalho, todas as instituições… Você acaba se mascarando para poder atender determinados padrões que são exigidos de você. E essa máscara envolve sua expressão vocal, gera uma identidade vocal, que muitas vezes você pensa que é o que você é.. Se você não tem essa investigação, e geralmente a gente não faz esse trabalho investigativo com a própria voz, fica sempre numa caixinha.

Muita gente fica surpresa ao ouvir pela primeira vez a própria voz no gravador… É a primeira descoberta, né?
A primeira, e geralmente desagradável. Dificilmente uma pessoa vai dizer: “nossa, como eu falo bacana”. Está até relacionado um pouco com nossa autoestima, com a autoimagem.
Nós temos dois níveis de apreender a voz. Uma observação aérea, que é a que eu tenho da sua voz, não estou nos seus ossos, não estou no seu ouvido, e o gravador capta esse outro jeito. E nós temos uma impressão óssea da nossa voz, é uma outra relação, e muito íntima. Hoje estou bem acostumado com minha voz e percebo o que posso alterar.

Você parte do princípio de “da onde está vindo este som?”, onde mexe no corpo quando você faz determinado som, até essa relação com a energia vital, com os chakras. No que se baseou para criar este método?
Eu abordo a expressão vocal primeiramente pela questão fisiológica. Como é o aparelho fonador? O que compõe esse aparelho? É a parte respiratória, como ela se constitui fisicamente, como ela está, cada um seu quadro respiratório, e nós vamos dar uma estudada nisso. Como é sua relação com sua musculatura diafragmática, abdominal, assoalho pélvico. Essa consciência destes pontos são a gênese do trabalho da expressão vocal.
Comecei a estudar isso mais a fundo e busquei encontrar essa resposta um pouco na abordagem do Reich, que é um precursor da terapia corporal, foi discípulo do Freud e reconhece toda teoria freudiana, mas vai um pouco além na questão de que, se isso existe no meu psiquismo, de alguma maneira isso também se cristalizou no corpo. Então ele criou uma teoria que ele chamou das couraças musculares, que são pontos no seu corpo em que você travou, como se estivesse encouraçado, como se fosse um cinturão que aprisiona. E ele também chama de energia vital, uma energia que começa a ficar bloqueada no corpo. E coincidentemente eles estão muito relacionados aos chakras, que são pontos energéticos onde o Reich vai localizar estas couraças.

E como se dá essa relação entre a parte física e a energética?
Ao mesmo tempo em que trabalhamos a parte muscular, há abordagem do que representam estes centros energéticos, os chakras, e o que cada um significa na nossa totalidade psíquica, emocional e espiritual. Desde o primeiro chakra que tem uma coisa relacionada com instinto e sobrevivência, o segundo, que é associado com prazer e sexualidade e o terceiro, que vai lidar um pouco com a autoimagem, com a possibilidade de exercício da vontade. São como reinos, instâncias do nosso psiquismo, que estão contidos nestes centros energéticos.

É interessante que a gente pensa em voz, e associa à região da garganta… Mas estes três primeiros chakras ficam na região do quadril…
Começa lá embaixo… Por isso que eu digo que a gente precisa fazer uma revisitação biográfica. De alguma maneira a gente aborda a teorias freudianas da formação inicial, fase oral, anal, genital. Como foi sua fase genital? Como você fica com sua musculatura pélvica? Porque eu sempre gosto de dizer que o diafragma é um músculo involuntário, e o que faz com que controlemos ele é a musculatura periférica, abdominal, intercostal e a musculatura pélvica. Precisamos conhecer melhor para ter maior intimidade com minha musculatura diafragmática que é a exigida no trabalho respiratório para o canto.
E aí associo o que o Pathwork vai chamar de energia vital, que é um pouco distorcida, essa energia também tem a ver com a kundalini, essa energia do yoga, essa energia que vai subindo pelos chakras e que idealmente ela deveria chegar até o sétimo chakra pra causar o que chamamos de iluminação.

E aí esse caminho da energia segue dos três primeiros chakras, que você citou, em direção à região da garganta, onde estão as cordas vocais…
Isso, vamos subindo para o quarto chakra, que tem a ver com afetividade, confiança, mas também com ressentimento, com mágoas. Depois vamos para o quinto chakra, que é o da expressão, mas ao mesmo tempo está truncado, por isso você não consegue articular seus sons. Aí a gente vai limpando isso, paralelamente, com um trabalho de técnica clássico, com os vocalizes. Mas é um trabalho que vai acontecendo concomitantemente.

Você acredita que todos podem cantar?
Com técnica, autoconhecimento e um pouco de paciência, sim. Porque é um trabalho.
Muitas vezes, também, a pessoa já tem a técnica, mas possui uma timidez, e a gente trabalha também com o autoconhecimento corporal. Por isso que coloco dança, porque nela você trabalha questões relacionadas a ritmo.
Outra parte que acho importante é o da interpretação de texto. A gente faz uma análise textual, para ter entendimento do que você está cantando. Que tom você encontra para aquilo. Essa consciência da palavra. Um trabalho que é mais teatral.

Como isso acontece?
A gente pode escolher determinada música, ou peço para que o aluno leve uma música que ele goste de cantar, e a gente faz uma investigação: por quê? O que está falando pra você? E como você consegue expressar de maneira que isso fique vivo para o outro entender também? Você associar seu emocional, seu sentimento, concretamente com aquela palavra que você está expressando. Conectar-se sentimentalmente com aquela música com clareza, com qualidade, com honestidade e verdade. E para isso, você precisa entender o que ela está significando para você.

As vivências do ABC das Vozes, com Chico Azevedo, são realizadas às quintas-feiras, das 20h30 às 22h15, no Espaço Vajra.