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A Arte de Viver (S.N. Goenka)

Todos buscam paz e harmonia, porque isto é o que falta em nossas vidas. De quando em quando todos nós experimentamos agitação, irritação, desarmonia. E, quando sofremos agitação, não restringimos esse sofrimento a nós mesmos. Estamos continuamente distribuindo sofrimento aos outros também. A agitação permeia a atmosfera que circunda o sofredor e todos que entram em contato com essa pessoa se tornam irritados, agitados. Certamente, esse não é um modo apropriado de viver.

Devemos viver em paz com nós mesmos e em paz com os outros. Afinal, seres humanos são seres sociais, têm de viver em sociedade e lidar uns com os outros. Mas como podemos viver pacificamente? Como mantermos-nos em harmonia interior e mantermos a paz e a harmonia ao nosso redor, de forma que também os outros possam viver pacífica e harmoniosamente?

Para livrarmos-nos de nosso sofrimento, temos de saber a razão básica para sua existência, a causa do sofrimento. Se investigarmos o problema, torna-se claro que sempre que começamos a gerar qualquer negatividade ou impureza na mente, certamente nos tornaremos agitados. Uma negatividade na mente – uma contaminação ou impureza mental – não pode coexistir com a paz e a harmonia.

Como começamos a gerar negatividades? De novo, através da investigação, tornase claro. Eu me torno muito infeliz quando acho que alguém age de uma maneira que não gosto ou quando não gosto de alguma coisa que acontece. Coisas indesejadas acontecem e eu gero tensão interior. Coisas que quero não acontecem, alguns obstáculos aparecem no caminho e, novamente crio tensão interior; começo a atar “nós” internos. E, pela vida afora, continuam a acontecer coisas indesejadas e as desejadas podem ou não acontecer e este processo de reação, de atar nós — nós górdios — torna toda a estrutura física e mental tão tensa, tão cheia de negatividade, que a vida se torna um sofrimento.

Uma forma de resolver este problema é dar um jeito para que nada de desagradável aconteça na vida e que tudo aconteça exatamente como queremos. Temos de desenvolver o poder de fazer com que tudo que desejamos aconteça e o que não desejamos não aconteça, ou ter alguém com tal poder que nos ajude sempre que solicitarmos.

Mas isso é impossível. Não há ninguém no mundo cujos desejos sejam sempre
satisfeitos, em cuja vida tudo ocorra de acordo com sua vontade, sem acontecer nada indesejável. Fatos contrários à nossa vontade e ao nosso desejo ocorrem constantemente. Portanto, apesar de todas essas coisas que me desagradam, como posso parar de reagir cegamente? Como posso evitar gerar tensões? Como poso permanecer pacífico e harmônico?

Na Índia, assim como em outros países, pessoas sábias e santas do passado estudaram esse problema — o problema do sofrimento humano — e encontraram uma solução: se algo indesejável ocorre e você começa a reagir gerando raiva, medo ou qualquer outra negatividade, então, você deve desviar sua atenção o mais rapidamente possível para uma outra coisa qualquer. Por exemplo, levante-se, pegue um copo d’água, comece a bebê-la e sua raiva não se multiplicará; pelo contrário, começará a diminuir. Ou comece a contar: um, dois, três, quatro. Ou comece a repetir uma palavra, ou uma frase, ou algum mantra: isso é facilitado se usar o nome de uma divindade ou de um santo pelo qual você tenha devoção. A mente se distrairá e, até certo ponto, você estará livre da negatividade, livre da raiva.

Essa solução foi útil, deu certo. Ainda dá. Praticando isso, a mente sente-se livre da agitação. Entretanto, essa solução atua apenas no nível consciente. Na verdade, ao desviar a atenção, você empurra a negatividade profundamente para o inconsciente e, nesse nível, continua a gerar e multiplicar a mesma impureza. Na superfície há uma camada de paz e harmonia mas, nas profundezas da mente, jaz um vulcão adormecido de negatividade reprimida que, de quando em quando, explodirá em violenta erupção.

Outros exploradores da verdade interior foram ainda mais longe em sua busca e, experimentando a realidade da mente e da matéria neles mesmos, concluíram que desviar a atenção é apenas fugir do problema. Fugir não é a solução; você tem de enfrentar o problema. Toda vez que a negatividade surgir na mente, simplesmente observe-a, enfrente-a. Assim que começarmos a observar uma impureza mental, ela começará a perder toda a sua força. Lentamente irá murchar e será extirpada.

Uma boa solução: evitar os dois extremos da repressão e da livre manifestação. Enterrar a negatividade no inconsciente não a erradicará; e permitir sua manifestação com ações verbais ou físicas prejudiciais apenas criará mais problemas. Mas se você apenas observar, então, a impureza desaparecerá e você estará livre dela.

Isso parece maravilhoso, mas será realmente prático? Quando a raiva surge, apodera-se de nós tão rapidamente que nem mesmo percebemos. Então, dominados por ela, dizemos ou fazemos coisas que prejudicam aos outros e a nós mesmos. Mais tarde, quando ela passa, começamos a chorar e nos arrependemos, pedindo perdão a uma pessoa ou outra, ou a um deus: “Ah, cometi um erro, por favor, me desculpe!” Mas da próxima vez em que nos encontrarmos em uma situação semelhante, reagiremos da mesma forma. Todo esse arrependimento não ajuda em nada. A dificuldade é que não temos consciência quando uma impureza surge. Ela surge no nível profundo na mente inconsciente e, quando chega ao nível consciente, já ganhou tanta força que nos domina sem que possamos observá-la.

Vamos supor que eu contrate um secretário particular e toda vez que a raiva surja ele diga: “olhe, a raiva está começando!”. Como não sei a que horas a raiva vai começar, terei de contratar três secretários para os três turnos: manhã, tarde e noite!

Suponhamos que possa arcar com isso e que a raiva comece. Assim que meu secretário me avisar, “ah, senhor, veja — a raiva começou!”, a primeira coisa que farei será dar-lhe um tabefe e xingá-lo: “Seu imbecil, acha que é pago para me ensinar?”

Estou tão dominado pela raiva que nenhum bom conselho ajudará.
Suponhamos que o discernimento prevaleça e eu não o agrida. Em vez disso, digo: “Muito obrigado. Agora preciso me sentar e observar minha raiva.” Será que é possível?

Ao fechar os olhos e tentar observar a raiva, o objeto da minha raiva imediatamente surge em minha mente — a pessoa ou o fato que a iniciou. Logo, não estarei observando a raiva pura, mas meramente o estímulo externo dessa emoção. Isso servirá apenas para multiplicar a raiva; e, portanto, não é a solução. É muito difícil observar qualquer negatividade abstrata ou emoção abstrata separada do objeto externo que originariamente foi responsável pelo seu surgimento.

Entretanto, alguém que atingiu a verdade suprema encontrou uma solução real.
Descobriu que sempre que uma impureza surge na mente, duas coisas começam a acontecer simultaneamente no plano físico. Uma é que a respiração perde o seu ritmo normal. Começo a respirar mais forte sempre que a negatividade surge na mente. Isso é fácil de se observar. Ao mesmo tempo, em um nível mais sutil, uma reação bioquímica começa no corpo, resultando em uma sensação. Toda impureza irá gerar uma sensação ou outra, em alguma parte do corpo.

Isso oferece uma solução prática. Uma pessoa comum não pode observar impurezas abstratas da mente — medo, raiva ou paixão abstrata. Mas, com a prática e treinamento adequados, é muito fácil observar a respiração e as sensações corporais, ambas diretamente relacionadas às impurezas mentais.

A respiração e as sensações vão ajudar de duas formas. Primeiramente, serão como que secretários particulares. Assim que uma negatividade surgir na mente, a respiração perderá sua normalidade; começará a gritar: “olhe, alguma coisa deu errado!”.
Eu não posso repreender minha respiração; tenho que aceitar esse aviso. Da mesma forma, as sensações vão dizer que algo vai mal. Então, tendo sido avisado, poderei começar a observar a respiração e as sensações e, muito rapidamente, verifico que a negatividade cessa.

Esse fenômeno físico-mental é como duas faces de uma moeda. Em uma das faces, estão os pensamentos e as emoções surgindo na mente; na outra, estão a respiração e as sensações corporais. Quaisquer pensamentos ou emoções, quaisquer impurezas mentais que surjam, manifestam-se na respiração e nas sensações daquele momento.

Logo, observando a respiração ou as sensações, estamos, de fato, observando as impurezas mentais. Em vez de fugirmos do problema, estaremos encarando a realidade como ela é. Como resultado veremos que essas impurezas perderão sua força; não mais nos dominarão como no passado. Se persistirmos, elas finalmente desaparecerão por completo e começaremos a viver uma vida pacífica e feliz, uma vida cada vez mais livre das negatividades.

Dessa forma, essa técnica de auto-observação mostra-nos a realidade em seus dois aspectos: interior e exterior. Previamente olhávamos apenas para fora, perdendo a verdade interior. Procurávamos sempre fora de nós a causa de nossa infelicidade; sempre culpávamos e tentávamos modificar a realidade externa. Por ignorar a realidade interior, não se entendia que a causa do sofrimento está dentro de nós, em nossas reações cegas.

É difícil observar uma negatividade abstrata quando surge. Mas agora, com o treinamento, é possível ver o outro lado da moeda. Podemos tomar consciência da respiração e também do que acontece dentro de nós. O quer que seja, respiração ou sensação, aprendemos a simplesmente observar sem perder o equilíbrio mental. Paramos de multiplicar nosso sofrimento. Em lugar disso, se permite que as impurezas se manifestem e desapareçam.

Quanto mais praticamos essa técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecerão. Pouco a pouco, a mente tornar-se-á livre de impurezas, tornar-se-á pura. Uma mente pura é sempre cheia de amor — amor desinteressado por todos os outros; cheia de compaixão pelas falhas e sofrimentos dos outros; cheia de alegria pelo seu sucesso e felicidade; cheia de equanimidade diante de qualquer situação.

Quando se atinge esse estágio, todo nosso padrão de vida começa a se transformar. Não é mais possível fazer ou falar qualquer coisa que perturbe a paz e a alegria dos outros. Em vez disso, uma mente equilibrada não apenas torna-se pacífica, ajuda os outros a também se tranquilizarem. A atmosfera que cerca uma tal pessoa se tornará permeada de paz e harmonia, e isso começará a afetar os demais também.

Esse foi o ensinamento do Buda: uma arte de viver. Ele nunca estabeleceu ou ensinou nenhuma religião, nenhum “ismo”. Nunca instruiu aqueles que o procuravam a praticar qualquer rito, ou ritual, ou alguma formalidade vazia. Ao contrário, ensinava-os a observar a natureza tal como ela é, observando a realidade interior. Na ignorância continuamos a reagir de determinadas maneiras que prejudicam a nós e aos outros. Porém, quando a sabedoria surge — a sabedoria de observar a realidade como ela é — esse hábito de reagir vai embora, desaparece. Quando paramos de reagir cegamente, então, somos capazes da ação verdadeira — ação proveniente de uma mente equilibrada e equânime, uma mente que vê e compreende a verdade. Tal ação poderá ser tão somente positiva, criativa e benéfica para nós e para os outros.

Logo, o que é necessário é “conhecer-se a si mesmo” — conselho dado por todo sábio. Precisamos conhecer a nós mesmos, não apenas intelectualmente, no nível teórico e das ideias. Tampouco significa nos conhecermos emocional ou devocionalmente, apenas aceitando cegamente o que ouvimos ou lemos. Tal conhecimento não é suficiente. Mais do que isso, precisamos conhecer a realidade experimentalmente. Precisamos experimentar diretamente a realidade desse fenômeno físicomental. Só isso nos ajudará a libertar-nos de nosso sofrimento.